Tinder: Estamos vivendo na utopia do iFood humano?
🛒 Quando as conexões deixam de ser encontros e passam a ser pedidos por delivery.
Contextualização: Recentemente, conversando com um amigo de infância, acabamos falando de namoro, ele me contando de forma entusiasmada que estava conhecendo uma garota e inclusive que já estava ficando sério (um namoro sem ter assumido o namoro), rs, o garoto está apaixonado! É algo bonito de se ver.
Ambos se conheceram através do Tinder e eles realmente tinham a essência um do outro para toda essa quÃmica funcionar.
Bom... Eu por outro lado, não uso o Tinder há muitos anos, acredito que cerca de uns 10 anos, e como muitos de vocês sabem, estou solteiro.
Meu último relacionamento, por mais que tenho uma gratidão imensa, não terminou da forma que desejava, e sinceramente? Ainda é um assunto que ainda me machuca, mas os desabafos já falam por si só uma parte de toda essa jornada.
Conversando com meu amigo, que diz que o Tinder é o melhor app para conhecer pessoas e se relacionar, que através do filtro, poderia conhecer alguém que se encaixasse no meu perfil, que era tudo uma questão "de filtro".
Logo pensei: "Por que não?"
Eu sendo uma pessoa tÃmida e tendo me tornado um pouco mais antissocial após a era da Covid, vi ali uma oportunidade de conhecer novas pessoas.
Minha intenção não era a "pegação", mas ver o que o mundo tinha a oferecer. Quem sabe uma amizade? Quem sabe a chance de amar alguém novamente?
Mas, ao usar o app, o choque de realidade foi imediato: o Tinder hoje é, na verdade, um catálogo de iFood humano.

A opção de menus e o prato principal:
A sensação de usar o Tinder é simplesmente bizarra. Você não está conhecendo pessoas, você está arrastando a tela de um lado e outro escolhendo qual lhe agrada mais visualmente, assim como faz no iFood escolhendo se prefere uma comida japonesa ou um hambúrguer e qual restaurante tem o prato mais apreciativo.
O Tinder ele permite separar por gostos, signos, músicas... É interessante ver como a IA está moldando as pessoas, cerca de 80% das descrições era algo bobo como: "Se for para chamar para ir na sua casa, aperte X" ou então algo feito por IA com mensagem positiva e de impacto.
No final, parece que as pessoas ali, só seguem uma checklist genérico;
A Vitrine: Fotos pensadas para parecerem espontâneas / link do Instagram.
Os Ingredientes: Altura, signo, se bebe, se fuma.
O Carrinho de Compras: O "match" virou o equivalente ao "adicionar ao carrinho".
"Açúcar, tempero e tudo que há de bom. Estes foram os ingredientes escolhidos para criar as garotinhas perfeitas..."

A utopia do Tinder de ter um "match" se revelou, para mim, uma distopia da conveniência. No iFood, se a comida demora a chegar ou você não gosta do sabor, você pode cancelar e simplesmente pedir em outro restaurante, no Tinder, a dinâmica é a mesma.
A forma prazerosa que nosso cérebro ganha de ter um cardápio infinito na palma da mão, faz com que nos tornemos apenas a vitrine e ganha quem tem a melhor foto ou é mais sexy.

No Tinder, se o papo não flui por algum motivo, nos próximos 2 minutos, voltamos para a vitrine para escolher o próximo prato. É simples e tedioso.
Para quem saiu de uma dor recente e busca algo real, a logÃstica do fast food humano é desoladora.
Onde fica a conexão? A conversa? o espaço para a timidez?
O uso de apps como Instagram, Tinder e companhia, busca facilitar encontros e criar intimidade, mas acabamos transformando a conexão humana em apenas um catálogo. Todos estamos ali, expostos, em um menu digital, esperando que alguém curta a nossa "embalagem", muitas vezes, sem ao menos prestar a atenção no nosso nome ou descrição.
Eu invejo meu amigo que teve sorte na sua jornada, mas ainda tento entender como o mundo ficou tão rápido nessa questão tecnológica, que não estou mais conseguindo acompanhar.
Talvez, estamos realmente vivendo no Big Brother e não estou sabendo lidar com essa era ou talvez, meu amigo tenha apenas dado sorte. lol
Limp Bizkit - Behind Blue Eyes
Ninguém sabe como é
Ser maltratado, ser derrotado
Atrás de olhos azuis