[+18] Vivendo uma personagem feminina: O que acontece quando um homem caminha por Los Angeles como "mulher"

💃 Como uma simples mudança de "skin" altera as regras e revela o comportamento predatório escondido nas ruas de Los Angeles (e do mundo).

Para entender o peso desse registro, precisamos primeiro falar sobre o protagonista: Vladimiros Nicola, mais conhecido como Vlad Ncl.
Imagem retirada do site: https://cyprus-mail.com/2023/11/01/successful-youtuber-says-it-loud-try-harder/

Vlad é um criador de conteúdo que dominou o YouTube com a arte da transformação. Usando maquiagem, roupas e um impressionante controle vocal, ele cria uma personagem feminina tão perfeita que acaba expondo um cenário que muitos preferem ignorar: o assédio e a completa falta de segurança das mulheres nas ruas.

Quem o vê, acredita cegamente estar diante de uma mulher. Mas, por mais que a premissa original de seus vídeos costuma ser cômica, a realidade das ruas levanta uma redflag enorme.

A brincadeira acaba no exato momento em que ele é forçado a quebrar o personagem para garantir a própria integridade física.

Projetando a imagem de uma mulher meiga e frágil, ele se torna um alvo fácil para predadores. Alguns homens o encurralam, invadem seu espaço, tentam tocá-lo e até forçar um beijo. Nesses momentos de tensão real, a única saída é sair do personagem, engrossar a voz e dar um belo:

"Chega pra lá, cara! Tá maluco?"

O que o Vlad mostra em seu experimento não é um problema exclusivo de Los Angeles, mas um sintoma de uma cultura apodrecida no mundo inteiro. Igual uma maçã mofada.

Desde novos, nós, homens, aprendemos que o assédio é algo normal, algo para "virar homem".

O assédio não nasce da atração em si, mas de um senso de propriedade e superioridade — a ideia de que o corpo feminino deve ser visto como algo sensível e frágil, sendo de domínio e acessível a qualquer um.

Isso mostra como fomos criados para acreditar que temos esse poder. E não, eu não estou exagerando.

Voltando alguns anos na história:

A mulher era apenas "da casa", não tinha direito a voz ou a voto, restando-lhe apenas ser uma escrava do homem dominante (essa narrativa merda toda de macho beta, alfa e essas porras aí).

Algo que é ensinado até hoje por muitas igrejas que se dizem "da família" e repassam esses trejeitos antigos e retrógrados. (Provavelmente serei cancelado por falar mal de igrejas/religiões, e aqui vai o meu grande e belo foda-se):

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Trazendo essa realidade para o nosso país, o material do Vlad serve como um argumento irrefutável para os debates que ocorrem no Brasil, culminando com a aprovação no Senado do Projeto de Lei 896/2023, batizado de "Lei da Misoginia".

O objetivo do projeto é claro: equiparar o ódio e a aversão às mulheres ao crime de racismo, tornando a misoginia um crime inafiançável e imprescritível, com penas de reclusão.

Se alguém ainda acha que este texto é um monte de "mimimi" ou exagero, o experimento do Vlad em Los Angeles serve como um tapa da realidade que muitos preferem ignorar. É a maior prova que podemos ter.

O vídeo expõe a misoginia das ruas de forma nua e crua, bem na nossa cara. Nada ali é combinado; é apenas o Vlad e seu câmera documentando o que acontece em sua volta.

É algo que Sacha Baron Cohen (um cara que sou fã), mostra com o filme Borat, já expôs usando um humor sarcástico para arrancar o pior das pessoas. Mas aqui não há sátira, é apenas o terror cotidiano de mulheres pelo mundo.

Quando assistimos ao vídeo, vemos os caras se aproximando e percebemos que não há flerte.

Há um cerco. Cria-se um perigo constante em volta do Vlad, que se sente visivelmente intimidado, mesmo quando as abordagens ocorrem à luz do dia.

São caras que bloqueiam a passagem, invadem o espaço pessoal e, quando chega a noite, agem com a certeza absoluta de que aquela "mulher" é posse deles. A sensação de impunidade e de poder é tão doentia que chega ao ápice repulsivo de um dos assediadores pegar a mão do Vlad e colocá-la à força sobre o próprio pau.

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Cena retirada do vídeo do Canal do Vlad: https://www.youtube.com/watch?v=ung8gHRxBPI

Dialogo adaptado para o português;

"Enquanto eu estava esperando o próximo trem, esse cara se aproximou"
  • Cara: Como você está?
  • Vlad: Desculpe?
  • Cara: Qual seu nome?
  • Vlad: Natalie
  • Cara: Prazer em conhecê-la. De onde é que você é?
  • Vlad: Rússia.
  • Cara: Você é muito bonita.
  • Vlad: Obrigada.
  • Cara: A gente pode sair ou algo assim?
  • Vlad: Eu acho que estou bem.
  • Cara: Sim?
"Após o momento do "sim", me movi um pouco para tirar a mão dele da minha bunda e então, ele simplesmente pega minha mão e coloca no seu pau."

Inclusive, deixo aqui um gancho para um novo post para escancarar algo que Sacha Baron Cohen fez no primeiro filme do Borat.

Há uma cena clássica, por exemplo, onde ele pega carona em um trailer com universitários americanos. Ao se fazer de gringo ignorante e machista, Borat cria uma "amizade" e uma intimidade doentia com aqueles caras. O resultado?

Os jovens se sentem confortáveis para falar, aos risos, que as mulheres têm direitos demais e que deveriam voltar a ser tratadas como escravas.

Borat usa o humor; Vlad usa o silêncio.

Mas ambos provam a mesma coisa: quando esses caras acham que não há consequências, o monstro sai da jaula.

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Borat: O Segundo Maior Repórter do Glorioso Pais Cazaquistão Viaja a América (2006)

E se você acha que esse monstro só sai da jaula nos Estados Unidos, em vídeos do YouTube, em telas de cinema ou na internet... Meu amigo(a), você está muito enganado. Ele está aqui, na nossa cara, operando na porta ao lado.

Tenho uma amiga, ainda menor de idade, que recentemente precisou ouvir piadinhas nojentas sobre o tamanho dos próprios seios, além de ter que suportar olhares invasivos. Apenas uma adolescente, exposta e se sentindo horrível por simplesmente existir no próprio corpo.

Isso não é "brincadeira de menino" ou falta de noção. É a exata sensação de posse e superioridade que o Vlad vivenciou nas ruas de Los Angeles, sendo plantada e normalizada na cabeça de quem se acha no direito de sexualizar e constranger o corpo alheio.

Mas sabe qual é o verdadeiro soco no estômago? O pior de tudo foi ela ter que escutar da própria mãe que isso é "besteira de meninos" e que ela não deveria se importar.

Porra? Como assim?

É aí que a gente vê o quão profundo é o buraco. A cultura é tão apodrecida que a própria figura de proteção da menina invalida a dor dela. É o sistema ensinando a mulher, desde cedo, a engolir o assédio calada e aceitar que o espaço dela pode ser invadido a qualquer momento, apenas para proteger o "direito" do homem de ser um escroto.

E a coisa escala para a fase adulta de forma ainda mais cruel.

Outro caso revoltante é o de uma amiga próxima. Ela vive um verdadeiro terror psicológico nas mãos do ex-marido.

O sujeito simplesmente não aceita o fim e a persegue de forma doentia: bate na porta de vizinhos para arrancar informações, tenta manipular a vida dela e faz pressão para que ela se afaste da própria família, buscando isolá-la.

A lógica desse ex-marido é rigorosamente a mesma dos caras que encurralaram o Vlad naquela estação de trem. Ele não a vê como uma mulher livre. Ele a vê como uma posse, como "da casa", uma escrava particular que ele usou, desrespeitou, mas que se recusa a soltar.

É por coisas assim que o vídeo do Vlad é tão sufocante.

Porque no YouTube a duração é de trinta minutos, mas na vida real o cerco não tem botão de pause.

Vlad teve o luxo de chegar em casa, suspirar aliviado e tirar a maquiagem para voltar a ser um homem intocável. Mulheres reais não têm um disfarce para tirar no fim do dia. E enquanto as leis não forem levadas a sério para punir essa misoginia enraizada, elas continuarão sozinhas na estação.

Escrever e postar opiniões no meu próprio espaço me permite ir além das cercas que as redes sociais nos impõem — limites criados porque é muito mais fácil censurar ou esconder o problema real sob o tapete do que lidar com ele.

Mas, ainda assim, eu sei que isso não é algo que se resolve apenas com um texto, um desabafo sincero, opiniões ou trechos de vídeos.

Resolve-se com a observação dura e incômoda da nossa própria cultura, do nosso próprio reflexo.

Vlad é um espelho. Borat também é. Eles refletem o que está acontecendo nas ruas e nas sombras a todo momento.

E se a gente se enoja com o que vê refletido ali, está na hora de aceitarmos a nossa parcela de culpa e mudarmos a porra desse reflexo para que o assédio deixe de ser a regra.

Palavras do Senhor? De Deus?

Não, palavras minha mesmo. Anotem aí:

"E a BESTA não se escondia mais, caminhando à VISTA de todos, confiante na CEGUEIRA de seus pares. Mas o espelho refletiu a sua COVARDIA, e o silêncio deixou de ser o seu ESCUDO."
— O Blog sagrado de Francisco, 666:13.

Como todo bom registro precisa da sua fonte original exposta, o vídeo completo da caminhada em Los Angeles está logo abaixo. Tirem suas próprias conclusões.

Tears For Fears - Woman In Chains ft. Oleta Adams

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É melhor você amar, é melhor você se comportar
É melhor você amar, é melhor você se comportar
Mulher acorrentada
Mulher acorrentada

Ela chama seu homem de A Grande Esperança Branca
Diz que está ótima, ela sempre resistirá
Mulher acorrentada
Mulher acorrentada

Sinto que sentar e esperar são coisas de um homem pobre
(Coisas de um homem pobre)
E sinto-me desesperadamente oprimido
Pelos seus olhos de aço
(Seus olhos de aço)
Bem este mundo está louco
Mantém uma mulher acorrentada

Mulher acorrentada
Mulher acorrentada

Negocia sua alma como pele e osso
(É melhor você amar, é melhor você se comportar)
Vende a única coisa que possui
(É melhor você amar, é melhor você se comportar)
Mulher acorrentada
(O Sol e a Lua)
Mulher acorrentada

Homens de pedra
Homens de pedra

Bem, eu sinto que no fundo do seu coração
Há feridas que o tempo não poderá curar
(Que o tempo não poderá curar)
E sinto que alguém, em algum lugar, está tentando respirar
Bem, você sabe o que eu quero dizer
Este mundo está louco
Mantém uma mulher acorrentada

Está tão dentro de mim, mas fora de meu controle
Eu rasgarei isso em pedaços mas não entenderei
(Alguém, em algum lugar, está tentando)
Eu não aceitarei a grandeza do homem
(O mundo está louco, mantém uma mulher acorrentada)
O mundo enlouqueceu
Mantém uma mulher acorrentada

Então liberte-a
Então liberte-a (o Sol e a Lua)
Então liberte-a (o vento e a chuva)
O Sol e a Luz
O vento e a chuva

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