A Espetacularização da barbárie: Onde o entretenimento brasileiro perdeu a alma.

😈 Dos domingos a ameaça biológica de dengue na Argentina pelo Pânico na TV ao caso Eloá: uma autópsia da TV que nos ensinou a não sentir nada.

[⚠️ Aviso: Contém diversos gatilhos para pessoas sensíveis]

Nos anos 90 e 2000, a televisão brasileira operava sob um modus operandi implacável: a ditadura do Ibope.

Vencia quem registrava o maior número, não importando o custo ético ou o método utilizado. Sem algoritmos, feeds ou reels para prender a atenção, a TV era a única janela disponível;

A televisão não apenas ditava a moda, mas moldava a moralidade de uma nação que ainda engatinhava no acesso à internet.

Naquela época, o computador ainda era um artigo de luxo e a internet discada, um privilégio para poucos. Celulares eram feitos apenas para fazer ligações ou receber SMS.

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Créditos ao canal @RetroSpaceBR (https://www.youtube.com/@retrospacebr)

Ter uma linha telefônica custava uma pequena fortuna, os pulsos eram cobrados por minuto e a conexão era instável e trivial.

Sem a alternativa, o brasileiro médio era um refém da programação linear: ou você assistia ao que a TV oferecia, ou restava o silêncio. Foi nesse vácuo de alternativas que o entretenimento de massa se tornou um campo de batalha sem escrúpulos.

O que batizamos cinicamente de "entretenimento familiar" era, na verdade, um exagero de excessos sob a visão da dignidade humana, que era servia de combustível para manter o ponteiro alto e a audiência hipnotizada.

Domingo "o sagrado dia da família reunida na sala" se transformava-se em um palco de bizarrices, da "Banheira do Gugu" às "vídeo-cassetadas" do Faustão.

Sob a fachada de "brincadeira inocente", a sexualização explícita era servida como prato principal no almoço de domingo.

Normalizávamos a objetificação enquanto crianças e adultos assistiam a combates físicos por sabonetes, corpos expostos e closes invasivos.

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Créditos ao canal @CarlEdward1199U (https://www.youtube.com/@CarlEdward1199X)

Quando não era o sexo, era a dor: vídeos de pessoas em situações ridículas ou sendo machucadas, tudo devidamente temperado pelas agressões verbais e piadas do locutor.

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Créditos ao canal @canaldojardelito (https://www.youtube.com/@canaldojardelito)

Mas Gugu e Faustão eram apenas a camada superficial. Eles eram a porta de entrada para um abismo muito mais profundo e sombrio da TV aberta.

Programa do Ratinho:

Se o domingo era o palco da objetificação sob as luzes do auditório, o horário nobre da semana era onde a TV brasileira mergulhava no esgoto do sensacionalismo e violência, cruzando a porta aberta por Gugu, encontrávamos o Carlos Massa, popularmente conhecido como Ratinho.

O programa do Ratinho, não apenas apresentava um programa;

Ele institucionalizou a espetacularização da miséria e transformou o drama familiar em um ringue de vale-tudo ao vivo. O quadro "Exame de DNA" que era o mais famoso e que deveria ser um procedimento jurídico sério de direito à identidade, foi simplesmente convertido em um show de barbáries e horrores.

Entre cadeiradas, gritos e a trilha sonora do "Ratinho-nho-nho", a humilhação alheia era celebrada. O público assistia, entre risos de palco e o deboche de personagens como Xaropinho e Marquito, a desintegração de famílias em troca de alguns pontos na audiência. Era a dor real sendo moída e vendida como alívio cômico para uma massa anestesiada.

O Ratinho, conseguiu ir inclusive além disso, exibindo ao vivo, uma gravação onde uma criança de 3 anos é torturada como vingança por um traficante, sem censura nenhuma sob a violência, apenas distorcendo o rosto da criança.

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Encontrei apenas um trecho da gravação, mas acredito que o episódio completo se tornou uma lost mídia. Créditos ao canal @sist666trash (https://www.youtube.com/@sist666trash)

Aquele cena da criança torturada não foi apenas um erro de percurso; foi o atestado de óbito da responsabilidade social da TV aberta.

Ver o sofrimento real sendo usado como atração nos treinou a olhar para o abismo sem piscar. Estávamos aprendendo a ser voyeurs da barbárie.

Sônia Abrão:

Se o Ratinho transformou o drama familiar em circo, Sônia Abrão levou o sensacionalismo a um patamar de irresponsabilidade e foi responsável pela morte da Eloá. O caso Eloá, em 2008, tornou-se o marco divisório onde a ética jornalística foi sacrificada no altar da audiência em tempo real.

Ao decidir ligar para o sequestrador Lindemberg e entrevistar tanto ele quanto a vítima ao vivo, Sônia Abrão não estava apenas informando; ela estava interferindo em uma negociação policial delicada em troca de ibope.

A televisão transformou um crime em andamento em uma novela mexicana da vida real, onde o apresentador assume o papel de negociador e o espectador, em casa, assiste ao suspense com a mesma passividade de quem vê um filme de ação.

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Créditos ao Canal @DuduBatera (https://www.youtube.com/@DuduBatera)

Ali, o entretenimento brasileiro cruzou a última fronteira da decência. A espetacularização da tragédia de uma adolescente foi servida durante dias, alimentando o público com detalhes mórbidos e um protagonismo irresponsável da mídia.

O desfecho trágico foi o preço pago por uma cultura televisiva que aprendeu que a dor alheia, quando bem editada e narrada com tons dramáticos, é o produto mais rentável que existe.

O caso Eloá não foi apenas jornalismo ruim; foi a prova de que, para a TV brasileira, o "show" não pode parar, mesmo que isso custe uma vida.

Pânico na TV:

Mas, se o Ratinho e Sônia Abrã0 usavam da barbárie e da violência gratuita para engajar, o Pânico na TV surgiu para testar os limites da sanidade e da integridade física sob o manto do humor.

O que começou no rádio como uma conversa caótica, na TV transformou-se em um espetáculo de crueldade juvenil.

Sob a bandeira do "politicamente incorreto", o programa institucionalizou o assédio e a humilhação pública como forma de arte.

O Pânico era o herdeiro direto da "Banheira do Gugu", mas com uma roupagem mais agressiva.

As "Panicats" eram a evolução daquela objetificação dominical, agora expostas a situações degradantes em nome de uma suposta "zueira" sem limites. O programa não buscava apenas o riso; buscava a reação pelo choque.

Era a perseguição implacável a celebridades no "Sandálias da Humildade", a exploração de figuras vulneráveis em busca de fama e quadros que beiravam a tortura física de seus próprios integrantes.

Ali, o entretenimento brasileiro atingia seu ápice de desumanização. Não havia ética, não havia empatia; havia apenas o "causar" e está na mídia, seja de forma negativa ou não.

O Pânico nos convencia de que tudo era válido se houvesse uma edição frenética e uma risada gravada ao fundo. Eles pegaram o abismo que o Ratinho abriu e pularam dentro dele, puxando toda uma geração de jovens junto.

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Créditos ao canal @frazaoalan223 (https://www.youtube.com/@frazaoalan223)

Leo Lins:

O legado do Pânico não morreu com o fim do programa; ele apenas mudou de plataforma e refinou sua crueldade. O expoente máximo dessa herança é Léo Lins.

Se no Pânico a agressão era física e visual, com Lins ela se tornou intelectualizada sob a máscara do "humor negro" e do "humor não tem limites".

Ele é o subproduto perfeito de uma geração criada assistindo a humilhação pública.

Para Leo Lins, e para o público que ele cativa, o sofrimento de minorias, pessoas com deficiência ou vítimas de tragédias recentes não são limites para a piada, mas sim o alvo principal.

Sob o pretexto de defender a "liberdade de expressão", ele utiliza a mesma lógica que movia o Ratinho e o Pânico: o choque.

Não se trata de uma busca pela reflexão através do riso, mas da manutenção de uma postura de superioridade através do escárnio. Léo Lins é o eco moderno que ecoa daquela TV dos anos 90/2000, provando que a desumanização que começou na "Banheira do Gugu" e se profissionalizou no "Exame de DNA" agora se veste de stand-up para continuar testando o quão longe podemos rir do abismo alheio sem sentir remorso.

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Créditos ao canal @sitetvfoco (https://www.youtube.com/@sitetvfoco)

O Contrapeso Estratégico: A Vila do Chaves

No olho desse furacão de bizarrices, exploração e morte, o SBT mantinha um "porto seguro" que desafiava qualquer lógica de produção moderna: o programa do Chaves.

Era o oposto absoluto da barbárie. Um humor lúdico, repetitivo ao extremo e tecnicamente datado, mas que servia como o ponto de equilíbrio da audiência brasileira.

Contudo, a presença de Chaves na grade não era apenas uma questão de carinho pelo conteúdo; era uma estratégia de sobrevivência.

A emissora utilizou a vizinhança por décadas como o "coringa do ibope". Se a audiência caía ou se a concorrência pesava demais a mão no sensacionalismo, o Chaves entrava no ar para estancar a rejeição.

Ele era o conforto da repetição que anestesiava o público entre um quadro de exploração e outro.

Chaves era o "suco que parece de limão, tem gosto de tamarindo e é de groselha" servido após uma refeição indigesta de baixaria.

Ao mesmo tempo que oferecia um respiro de inocência, ele nos mantinha presos ao canal, garantindo que estaríamos ali quando a próxima dose de "vale-tudo" recomeçasse no programa seguinte.

A pureza do "Chavinho" servia para validar uma estrutura que, em qualquer outro horário, acabava com a dignidade humana.

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Créditos ao canal @jean_mr1704 (https://www.youtube.com/@jean_mr1704)

Do ibope ao algoritmo: A prisão mudou de formato

O tapa que a TV brasileira nos dava nos anos 90 e 2000 não sumiu; ele apenas se tornou digital.

Se naquela época éramos reféns da programação por falta de opção tecnológica, hoje somos reféns de um algoritmo que nos conhece melhor do que nós mesmos. A ditadura do Ibope foi substituída pela ditadura do engajamento.

O que antes era um "laboratório de excessos" em horário nobre, agora é um fluxo infinito de feeds e reels que operam sob a mesma lógica: o choque, a espetacularização da vida alheia e a busca incessante pela nossa atenção, que é a moeda mais valiosa do século XXI.

Mudamos a TV de tubo pelo smartphone, mas continuamos sendo voyeurs da barbárie. A diferença é que agora não somos apenas espectadores; somos, ao mesmo tempo, o produto e os curadores desse caos.

Nesse processo, estamos perdendo algo fundamental: o senso crítico. Fomos treinados pela TV a não piscar diante do abismo e agora somos refinados pelas redes sociais a não pensar fora da bolha.

A nossa identidade, antes moldada pela "moda da TV", agora é diluída em tendências efêmeras de vídeos curtos.

Aquela anestesia que o Chaves provocava entre um quadro de baixaria e outro agora é aplicada por rolagem infinita.

Consumimos tragédias, dancinhas, ódio e humor ácido em uma sequência tão frenética que não há tempo para digerir a falta de ética.

A vizinhança do Chaves deu lugar a um algoritmo que nos entrega o "conforto" do que queremos ver, apenas para nos manter passivos enquanto nossa capacidade de indignação é drenada.

A pergunta que fica ao olharmos para trás não é apenas "como assistíamos aquilo?", mas sim: "o que estamos aceitando assistir agora?".

Se não recuperarmos nosso senso crítico e nossa autonomia digital, continuaremos sendo aquela mesma audiência hipnotizada dos domingos, apenas segurando uma tela menor e muito mais perigosa.

🐂 Zé Ramalho - Admirável Gado Novo

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Ôôô, boi

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber

E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal

E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

Ôôô, boi

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela

Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar

Não voam, nem se pode flutuar
Não voam, nem se pode flutuar

Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

Ôôô, boi

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